Um Exercício de Amor Próprio

05 agosto 2017

{ph. Catarina Sousa @ Joan of July}

Nunca fui a pessoa mais confiante desta vida. Não sei se teve a ver com as pessoas que me rodearam nos anos críticos do meu desenvolvimento como mulher, se foi tudo da minha cabeça... mas sempre fui muito insegura em relação a mim.

Hoje, se me perguntarem se gosto de mim eu digo que sim, mas nem sempre foi assim. A minha adolescência foi difícil, como é difícil a de todos. Eu via todas as minhas colegas a se tornarem altas, a desenvolverem pernas, cintura e mamas mais cedo que eu e senti que estava a ser deixada de parte de um clube super secreto do qual eu não tinha as chaves.

Nesse período não ajudou também ter sido rejeitada por aquela paixão platónica da ensino básico do qual gostava há anos, por uma colega que se tinha tornado cisne enquanto eu ainda estava na fase patinho feio. Eu achava que para gostar de mim tinha que ter alguém a gostar de mim primeiro visto que isso me afastava da responsabilidade de descobrir quem era e praticar o amor próprio pondo todas essas responsabilidades noutra pessoa. A ideia parecia-me boa - tanto quanto um cérebro jovem adolescente consegue achar e compreender - mas só mais tarde percebi que isso só me prejudicou por impedir que eu descobrisse quem era e aprender a gostar de mim assim.

{ph. Catarina Sousa @ Joan of July}

Quando falo das pessoas que me rodearam nessa altura da minha vida não falo de todas. Conheci pessoas incríveis mas também conheci pessoas cruéis que pareciam que tinham prazer em brincar com as emoções e inseguranças das outras pessoas. Se eu tivesse recebido um euro por cada vez que alguma dessas pessoas me disse que tinha corpo de rapazinho de doze anos, tinha-me esquecido das mamas em casa e que já tinham visto animais mais bonitos que eu neste momento estava bastante confortável, a escrever isto da minha casa com piscina. Mas a verdade é que tudo isso fizeram com que eu ganhasse uma armadura contra aquilo que me diziam e que achavam que me podia magoar. Mas vamos deixar essas histórias mirabolantes da minha adolescência para outra altura.

Eu nunca compreendi o quão importante a confiança em nós próprios era até ter alguma em mim. Tinha-me tornado muito boa a fingir que o era, mas a verdade é que era insegura, sentia-me sozinha e esperava sempre que alguém reparasse em mim e disesse que eu valia alguma coisa. Foram precisos muitos anos para sair desse estado mental.

Não estou a dizer que me tornei confiante de um dia para o outro, longe disso. Mas cheguei a uma altura da minha vida em que achei que estava mais do que na hora de me dar uma hipótese. Deixei de considerar mau usar óculos, precisava deles. Passei a ignorar o facto das pessoas dizeram que eu era uma nerd, geek e book nerd como se fossem insultos quando para mim até eram (e são) coisas boas, afinal conseguia entreter-me durante horas, aprender imensas coisas novas e desenrascar-me em qualquer tipo de desafio que me propusessem. Passei sempre a ver o lado bom das coisas que as pessoas achavam más. Sou baixinha? Pelo menos se cair aleijo-me menos. Tenho poucas mamas? Poupo as costas e consigo usar soutiens giros e roupa decotada sem me chamarem de ordinária... e assim por diante.

{ph. Catarina Sousa @ Joan of July}

No entanto ultimamente passei por um período em que não me sentia eu. Passei meses a ser a Ana Enfermeira e a dedicar tudo de mim aos outros (orientadores, professores, doentes, estudos de caso) que acabei por deixar uma grande parte da Ana de lado. Aquela que toda a gente conhece, que usa batom azul sem problemas e, que se for preciso, mistura vermelho com um padrão amarelo de bolinhas azuis. Neste período de tempo também engordei quatro quilos. Não é nada de escandaloso porque sempre estive abaixo de peso mas sentia-me mal porque não estava habituada a ver-me assim: com as roupas justas a serem efectivamente justas, com algumas a vincar a barriga ou as pernas que estão mais rechonchudas e mais uma série de problemas que só existem na minha cabeça e que mais ninguém repara. Eu estou com o meu peso saudável e não estou habituada a ver-me assim. Também não estou a gostar do que vejo porque sinto-me flácida e pouco atraente. E isso abalou-me. No entanto, sou a única que consegue tratar disso e, se não estou contente, só tenho é de me mexer (literalmente) e fazer acontecer. É o que tenho feito. Pequenos treinos diários para recuperar a firmeza mas não perder peso.

Isto pode parecer um daqueles problemas de primeiro Mundo (e provavelmente é) mas mexeu o equilíbrio ténue que eu tinha comigo e com a minha confiança. E se juntarmos o ingrediente de Ana Enfermeira que referi há bocadinho... temos uma receita para o desastre.

{ph. Catarina Sousa @ Joan of July}

Não tenho andado a sentir-me eu e isso, para mim, é problemático porque parece que tive de reaprender tudo aquilo que demorei a construir no fim da minha adolescência e início da idade adulta. Andei a sentir-me da mó de baixo durante uns meses e sentia que não conseguia dar a volta. Fazia-me falta a sparkle que tinha antes dos estágios. Aquela faísca que incomodava muita gente. E precisei de me orientar. Pouco depois deixei-me de merdas e vi o meu valor: lutei muito para entrar no curso em que estou, sou uma pessoa inteligente, considero-me interessante, tento ter piada (às vezes consigo), gosto de ler e tiro fotografias boas. Qual é o mal de ter metro e meio? Mais quatro quilos agora do que tinha o ano passado? De ser míope e ter mamas pequenas? Sou bem feitinha, proporcional até. Não tenho grandes problemas de saúde e sou boa pessoa.

Pode parecer fácil este exercício que fiz agora, mas não é. Demorei muito a chegar lá, mas agora que já lá estou o trabalho é manter. E fazer o exercício todos os dias, sobretudo naqueles em que parece que temos amnésia selectiva e só encontramos os nossos defeitos e nunca as nossas qualidades.

Posso ainda não ser totalmente quem eu quero ser, mas estou num bom caminho. E até ver sou do caraças.

20 comentários

  1. Ao longo dos anos percebi que ter amor próprio é essencial para ser feliz...
    E ao ler o teu post, revi-me em situações parecidas e identifiquei-me bastante contigo em algumas situações. A adolescência consegue ser *a pain in the ass sometimes*...Mas enfim, tudo se supera
    Sinceramente, acho que não poderias ter acabado este post de melhor maneira, com positividade e otimismo :) Porque é mesmo isso que é preciso na vida!

    Beijinhos, Beatriz ♥
    Cat Lover

    ResponderEliminar
  2. Identifiquei-me muito contigo... Muita força Ana!!
    Beijinhos
    Joana
    https://curlyhairandlipsticks.wordpress.com/

    ResponderEliminar
  3. Ana adorei, acho que de uma forma ou de outra todas nos revimos na tua experiência. E ainda bem que somos boas pessoas mas se não equilibramos bem a balança as pessoas boas lixam-se sempre. Porque como vivemos muito para os outros isso inevitávelmente afasta nos de nós.
    Obrigada por este texto

    Mónica

    www.omelhorvemaseguir.pt

    ResponderEliminar
  4. É fantástico ler-te, Ana.
    Temos o hábito errado de nos valorizar-mos apenas quando os outros nos dão valor, ou de acreditar que somos melhores quando recebemos elogios. Sermos valorizados e elogiados é óptimo, é um aconchego no ego que conforta, mas não se deve resumir a isso. O exercício de "auto elogio" e respeito deve partir de nós, com todos os defeitos e diferenças que possamos encontrar.

    Valorizo o teu percurso e evolução e só posso retirar do teu testemunho um exemplo para mim mesma. Um beijinho.

    ResponderEliminar
  5. Cara, eu ainda estou na fase da adolescência complicada e que parece nunca ter final, é exatamente assim que me sinto!
    Mas tenho total consciência de que se eu não me amar, não terei suficiente para amar o outro!

    ResponderEliminar
  6. Já tive problemas com minha aparência, já fui zoada na escola e demorei a descobrir minha auto estima. No entanto, quando a consegui, não larguei mais! Hoje não só agradeço os elogios que me são feitos, como também enalteço a minha beleza ao concordar com os elogios. Aprendi com o tempo que gostar de mim mesma é me aceitar com meus defeitos e depois que eu conseguir me aceitar assim, conseguirei mudar algo que acredito que esteja errado. Mas, até Clarice Lispector já dizia: é preciso ter cuidado na hora de retirar seus defeitos, pois não se sabe qual mantém seu edifício erguido.

    Até mais! O/
    Karolini Barbara

    ResponderEliminar
  7. Oi.
    Sabe quando tu está precisando não se sentir sozinha? Seu desabafo fez isso comigo, me acolheu.
    Briguei muito comigo mesmo até me aceitar, passei um longo e difícil período até entender que não havia nada de errado comigo.
    Mas depois que tive meu terceiro filho vi aquilo tudo que demorei pra conquistar desmoronar novamente. Estou na fase de aos poucos se chega lá, tenho tido dias bons e alguns ruins.
    Hoje teu texto me deu colo e abrigo.
    Obrigada♥.

    ResponderEliminar
  8. A autoaceitação é o primeiro passo para a aceitação dos outros (que tanto procuramos). Somos como somos. Podemos mudar algumas coisas, as que não podemos, devemos aprender a aceitar e a amar. Somos como somos. Ponto.

    ResponderEliminar
  9. Por vezes são precisos determinados "cliques" para darmos valor a pequenas coisas que passam despercebidas. Amar-nos a nós e depois os outros faz parte da nossa aprendizagem...de vida!

    ResponderEliminar
  10. Como eu te entendo. Mas sabes que mais? És mesmo do caraças. Gira, engraçada, inteligente e uma pessoa bastante interessante. Isto digo eu que não te conheço ao vivo (ainda). Beijinhos e continua o exercício!

    ResponderEliminar
  11. Acho que com o tempo iremos sempre atravessar fases boas e outras nem tanto no que à auto-estima diz respeito. Já me senti assim também. Foi preciso um clique gigante, um abanão até, para perceber que eu sou suficiente para gostar de mim. E como é bom olhar ao espelho e perceber que faz toda a diferença quando gostamos de nós. Por vezes é preciso realmente mudar algo, mas isso só nos dará ainda mais orgulho e valorização pessoal.

    É com tristeza que percebo que dás uma conotação negativa à Ana Enfermeira. Entendo-te perfeitamente, mas acreditas que foi na Joana Enfermeira que me encontrei na entrega ao outro? Perdi-me entre turnos, estudos de caso e tudo mais, mas filtrando tudo isso, é com muito amor que dei que me aprendi a amar por reconhecer um dom em mim na comunicação. Eu acredito que também tu o tens. :)

    ❥ Biju da Ju,
    juvibes.blogspot.pt

    ResponderEliminar
  12. Me identifiquei super com o seu texto! Eu confesso que ainda estou no processo de autoconfiança, parte da minha adolescência foi bem parecida com a sua.
    Agenda Aleatória

    ResponderEliminar
  13. «Mas cheguei a uma altura da minha vida em que achei que estava mais do que na hora de me dar uma hipótese.» Que bonita frase. Acho que a vou escrever na minha agenda assim que a começar a preencher. É mesmo inspiradora e sincera. Como todos os teus textos, mas este com um carinho muito especial para mim. Pois, também tive destas fases e sensações recentemente.
    Brinde à aprendizagem da auto-aceitação, que seja um caminho constante e com tendência a melhorar a cada segundo que passa.
    Beijinhos <3

    ResponderEliminar
  14. Sinceramente.Acho que não ter seios é uma benção de Deus.
    Como você disse você pode usar qualquer blusa e nã9 ser julgada como vulgar...
    Mas isso não importa .Eu também sou insegura e deixo muito as pessoas me desanimarem das coisas que eu quero.
    Preciso praticar a auto -estima.
    E é isso ai...no fundo não importa a aparencia , mas sim o tipo de pessoa que você é , o que você sabe fazer
    Pena para os que não enxergam ou fingem não enxergar isso.

    Beijos

    ResponderEliminar
  15. Realmente, a adolescência é um período muito complicado. Estou saindo dela e nunca foi tão difícil viver como tem sido agora. Mas amor próprio é, com certeza, a receita para grande parte dos problemas. Espero que você volte a se sentir você mesma logo <3

    Beijo,
    http://todaprogramada.blogspot.com.br/

    ResponderEliminar
  16. Já te tinha dito que gostei muito deste texto?
    E, com o tempo, todas as tuas versões de Ana vão co-existir em harmonia, you'll see!

    A Sofia World

    ResponderEliminar
  17. Para alguém que nunca se lembra de ter tido auto-estima, ler este teu desabafo chegou a ser reconfortante, sabes? Pensei: "wow, até alguém que achava que era perfeito não se ama, vê defeitos em si mesmo".
    Acredita em ti, por favor. Pelo que consigo entender, és uma rapariga com muitos talentos! ;) Bem sei que ouvir aquilo que os outros dizem é "uma treta" quando nos sentimos em baixo, mas ao invés de te veres como "a Ana Enfermeira", "a Ana viciada em livros" e por aí fora separadamente, junta-as todas e tenta que co-existam em harmonia, como a Sofia disse. :)

    Beijinhos e muita força ;)

    Estranha Forma de Ser Jornalista
    http://estranhaformadeserjornalista.blogspot.pt/

    ResponderEliminar
  18. Tu és um espectáculo pah!Continua assim Ana ;)

    ResponderEliminar
  19. Compreendo a cena que dizes acerca da adolescência e tal. Tenho 17 anos e aos 11 comecei com sintomas de depressão que nunca mais paravam porque toda a gente achava que "era coisa de miúdos". No último ano, quando me vi a afundar mais bati o pé e disse aos meus pais que tinha de ir a um médico ou eu não ia resistir ao secundário (já o básico tinha sido um inferno e o secundário assemelhava-se). Comecei a tomar antidepressivos e a fazer este tipo de exercício psicológico de que sou uma pessoa capaz e como deve de ser. Não está a ser fácil, mas não me lembro da última vez em que me senti tão bem. Já larguei os comprimidos e parece que tudo se está a encaminhar e vai correr bem. Percebi que afinal não estou sozinha e que muito do que acontece no dia a dia depende da interpretação que nós fazemos da realidade.
    Desculpa o desabafo.
    beijinhos https://blog-flor-mar.blogspot.pt/

    ResponderEliminar
  20. Guardei este texto para a melhor altura! Identifco-me tanto, embora tenha 1m73cm, precise de perder peso e há muito que já encontrei o amor-próprio. No entanto, sinto que falta qualquer coisa, algo que já tive mas que se perdeu, e eu quero muito reencontrar. Este relato, juntamente com outros fatores, proporcionou-me a luz de que necessitava.

    Muito obrigada, Ana! De verdade! ♡
    LYNE

    ResponderEliminar

Design, coding and theme by Ana Garcês.
Copyright © 2011-2017