1/2 de Enfermeira

29 junho 2017

Durante muito tempo pensei que não ia conseguir escrever esta publicação. Questionei-me muitas vezes se era isto que queria da minha vida, se valia a pena continuar ou se estava a perder tempo precioso que podia estar a aproveitar para fazer outro curso. Vou ser mais explícita: pensei em desistir muitas vezes, mas não o fiz num misto de teimosia, força de vontade e um bocadinho de vergonha.

O problema das certezas absolutas é esse mesmo: juramos a pés juntos que é aquilo que queremos e depois, quando somos confrontadas com a realidade não é nada daquilo que estávamos à espera.

No primeiro semestre estive privada de sono. A carga horária era tão grande que dava por mim, às três da manhã a estudar para uma frequência, ou a fazer um trabalho, ou a acabar um relatório porque não tinha mais tempo para o fazer noutra altura. Passei a tudo à primeira e sem ir a exames, mas fiquei absolutamente esgotada. Trajei. Posso dizer-vos que até agora os meus pés estão impecáveis e nunca tive razão de queixa dos sapatos (logo vos ensino o truque, se quiserem). Entretanto foram escolhidos os locais de estágio e fiquei naqueles que queria: Garcia de Orta e Casa de Saúde do Telhal.


Aprendi muita coisa nestes quatro meses e meio de estágios. Sou uma pessoa diferente também. Houve alturas em que ficava acordada trinta e seis horas porque tinha feito noite e não conseguia dormir por nada quando chegava a casa. E quando conseguia era só umas duas horas. Andei outra vez privada de sono e exausta. Mental e fisicamente. E pensei em desistir porque os serviços não me estavam a entusiasmar. Não tenho nada a apontar dos orientadores que me calharam porque sei que me ensinaram o melhor que sabiam e sai de cada campo de estágio muito mais rica. Os primeiros dois estágios foram uma luta gigante entre mim e a minha cabeça. A vontade de desistir aliada à vontade de provar que conseguia, de saber que era boa naquilo que fazia. Foi uma bruta porrada psicológica que pouca gente teve a noção mas andei infeliz durante muito tempo. Não ajudou também os horários que andava a fazer. Conto pelos dedos das duas mãos o número de noites que fiz nos primeiros dois estágios: sete. Três em Cirurgia e quatro em Medicina. Fiz muitas noites seguidas, muitas tardes-noites, muitas noites-tardes e, a pior delas todas... noites-manhãs. Recusei muitos planos bonitos, engraçados e divertidos que eu queria muito fazer porque estava a fazer turno, ou porque estava exausta, ou porque estava p*ta com a vida devido a coisas do estágio. Recusei muitos convites, muitas oportunidades para me divertir, e isto chateeou-me. Mais do que pensam. Quando a vossa vida passa por casa-transportes-estágio-transportes-casa-estudo-de-caso-reflexões e repete tudo outra vez no dia seguinte... isso faz coisas a uma pessoa.


Nem tudo foi mau. Apesar de ter parecido na altura, hoje sei dizer que nem tudo foi mau. Aquilo que me fazia voltar todos os dias eram os meus doentes, que ficavam sempre contentes por me ver, que me perguntavam como estava a correr o estágio e que se voluntariavam para ajudar na minha aprendizagem. Nunca mais me esqueço do primeiro senhor que puncionei, nem do primeiro a que fiz um penso, nem do primeiro a que colhi sangue. Todas as pessoas que passaram por mim foram importantes. Todas me ensinaram qualquer coisa. Todas me acarinharam, mesmo que antes me tivessem tentado morder. O SNS é muito complexo, mas prometo-vos que não funciona mal.

O ponto de viragem neste meu caminho espiral abaixo por não saber bem aquilo que queria ser da minha vida nem saber quem eu era naquele momento deu-se quando tive de ir à CUF em modo urgência. Depois explico-vos.


O Telhal foi o meu maior amor. Aprendi muito sobre mim naquele serviço, mas muito mesmo. Conheci pessoas incríveis que ficaram ao meu cuidado das quais me vou lembrar para o resto da vida. Se eu vos dissesse tudo aquilo que aprendi nestes estágios nunca mais saía daqui.

Mas a verdade é que estou exausta. Não tive férias, estou a tê-las agora. E quero aproveitar. Se já tenho saudades? Talvez. Mas tenho de me pôr primeiro uma vez na vida e fazer aquilo que eu gosto. Tenho tempo em Setembro para me preocupar com o facto de já ir praxar e me preparar mentalmente para mais um semestre de estágios.

9 comentários

  1. Antes de mais: aproveita as férias e descansa muito, Aninhas! A vida tem destas voltas. Achamos que sabemos o que queremos e vai-se a ver e não era nada do que pensamos. Mas muitas vezes lutar compensa, e tu lutas que nem uma leoa! Tenho a certeza que vais ser uma grande enfermeira :)

    Jiji

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  2. Como dizem os entendidos, os primeiros anos são os mais fáceis. Quando aquilo começa a ser real é que ou vai ou racha. Se sobreviveste aos estágios e aos turnos e ainda não desististe da área, é provável que fiques aí o resto da vida. O importante é acreditares em ti e pelos vistos estás quase ansiosa por Setembro :)

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  3. Como te compreendo... estudei turismo e depois do meu estágio, vi que talvez não fosse mesmo aquilo que queria. Ainda não voltei a estudar, trabalho numa loja de roupa e sei que sou muito mais feliz ali, do que se tivesse ficado pelo turismo!

    Freedom Girl // Instagram

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  4. Deve ser mesmo difícil e exaustivo mas agora aproveita as férias, repõe todas as energias! Aproveita a vida!

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  5. Gostei muito deste post. Desejo que tenhas umas boas férias e muita força e sorte para Setembro.

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  6. Que grande safio e que grande superação, muitos parabéns. Agora estás mais forte ;)
    Beijinhos e boas férias!

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  7. Os primeiros estágios são sem dúvida os piores. A vontade de desistir não nos abandona e é normal, só faz de ti humana. Depois de passares os primeiros sem desistir, consegues ultrapassar qualquer coisa. Mas não penses que fica mais fácil, tens é outra bagagem e sabes coisas que não sabias quando iniciaste esta jornada. Acho que é o melhor que te posso dizer enquanto tua colega.
    Adorei o blog!
    Beijinhos,

    Giulietta

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  8. Se há trabalho que mais devia ser prezado é o de enfermeira. Boas férias e muito relax! Volta com a cabeça bem fresquinha e motivação no auge e que saibas sempre quando deves sair para tratar de ti primeiro. Um beijinho muito grande!

    http://pt.witkonijn.net/

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  9. A pior coisa do mundo é viver numa espiral de casa-trabalho-casa-trabalho e não se ter tempo ou possibilidades para mais nada. Não é viver, nem sequer sobreviver, e a dado momento já nem é existir. Faz coisas a uma pessoa, oh se faz. E quando essa espiral se passa dentro de um meio, uma área, um trabalho que não nos preenche por nada deste mundo... ui.Tirei um curso que n me diz NADA, numa área que nada me diz e na qual nunca trabalhei, ainda fui fazer uma pós graduação na mesma área naquela de sei lá, deixa ver se assim arranjo um emprego nisto e vejo se afinal até gosto, estagiei e percebi que nopes, nunca jamais em tempo algum, e vivi a minha vida profissional em empregos homicidas de alma, sugadores de sonhos e de felicidade. Um dia deu-me a louca - e a possibilidade de ser louca - e questionei-me quanto ao que é q queria fazer, q me fizesse feliz. A resposta foi só uma, e era algo q em miúda eu passava horas a fazer, mas mal cresci e me tornei adulta abandonei por completo. Mas é isso que me faz viver, sobreviver e até existir, por isso deixei para trás os cursos tirados só porque sim, porque tinha vergonha de desistir, e sou bem mais feliz.
    https://bloglairdutemps.blogspot.pt/

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