6 Coisas Que Gostaria Que Ensinassem no Curso de Enfermagem

Quando escrevi a minha lista de coisas que gostaria de ter sabido antes de ter escolhido Enfermagem ainda não tinha estagiado. Estava quase, com os cabelos em pé de medo e não sabia bem ao que ia. Dois estágios depois continuo a sentir que não sei ao que vou, mas já conclui que, apesar do curso ser muito completo, ainda falta que nos ensinem coisas fundamentais. Não estou a falar de procedimentos nem de técnicas, mas sim de uma coisa bem mais importante: lidar com situações.

1. COMO GERIR O TEMPO
É raro que isto seja ensinado nas aulas e, aquilo que sabemos, aprendemos por nós mesmos. Em qualquer profissão saber gerir o tempo é importante, sobretudo em Enfermagem que temos horários de medicações para ter em atenção.
Os enfermeiros, contudo, têm um problema: é-lhes dada uma carga de trabalho tão grande que muitas das vezes mal conseguem cumprir os mínimos quanto mais se darem ao luxo de sentar ou de ir à casa-de-banho. Na maioria das vezes o rácio recomendado de doentes por enfermeiro não é cumprido, fazendo com que o enfermeiro fique responsável por demasiados pacientes ao mesmo tempo.

Tendo em conta o número brutal de tarefas e responsabilidades que temos, temos de saber como organizar o nosso tempo de forma eficaz. E esta life skill é desenvolvida quando estamos a trabalhar e não tanto na Faculdade. E só eu sei a ginástica que tive de fazer para cumprir com tudo aquilo que me era proposto em cada turno simplesmente porque não havia tempo. Agora estou muito melhor e mais eficiente, mas ainda há um grande caminho a percorrer. Este assunto devia ser abordado também no tempo em que passamos nas salas de aula, porque priotirizar o nosso tempo entre trabalhos e estudar é muito diferente daquele que nos pedem quando temos pessoas (e não livros e teoria) nas mãos.

2. LIDAR COM OS MÉDICOS
A maioria dos médicos são espectaculares e incríveis de se trabalhar, mas a personalidade de cada um é a personalidade de cada um. Existem sempre médicos que são complicados de se trabalhar com. E quando isso acontece - e o médico que está na nossa equipa nesse dia acaba por ser arrogante e desagradável - é complicado. Porque nunca nos prepararam para isto e às vezes algumas linhas condutoras do que fazer nestas situações eram bem-vindas!


3. FAZER OS DIAGNÓSTICOS CERTOS
Como enfermeiros somos treinados em como fazer diagnósticos físicos (edemas, úlceras, escoriações, you name it!) e de estado de consciência mas não são só estas as coisas a que devemos estar atentos. Na escola de Enfermagem não nos ensinam a ler as pessoas - e acabamos por ter que aprender isso com a prática. Com o tempo vamos aprendendo a ver se um doente está - ou não - a mentir sobre os seus sintomas, de forma a nos ajudar a compreender melhor os seus diagnósticos.

4. LIDAR COM SENTIMENTOS (OS TEUS E OS DOS OUTROS)
Enfermagem pode ser uma profissão emocionalmente stressante às vezes. Da adrenalina que sentimos numa situação de emergência, à tristeza que temos quando um paciente nosso falece, os enfermeiros sentem tudo à flor da pele. Depois temos também o facto de termos de ser capazes de meter as nossas próprias emoções de lado durante as ditas emergências e lidar com as doenças e lesões. Lidar com os aspectos emocionais de se ser enfermeira é algo que as pessoas aprendem nas trincheiras. Como se estivéssemos em guerra.


5. A CONSTANTE MUDANÇA
Hoje em dia os hospitais são budget-conscious mas, ainda assim, inovadores. Isto cria um ambiente em que as coisas mudam rápida e frequentemente para quem lá trabalha e isto pode ser um desafio para os enfermeiros se manterem a par. Sobretudo quando algumas ferramentas e material que nos mostram na escola têm, pelo menos dez anos, e já não se usam há vinte.
(Quem é que no primeiro dia de estágio de todos nem sabia em que botão carregar num Dinamap porque eram tantos e só tinha aprendido a avaliar tensões e batimentos cardíacos à antiga? Eu).

6. LIDAR COM A MORTALIDADE
Estás confortável com a morte? Tens a certeza? Muita gente não está e às vezes até podem pensar que estão para descobrir que afinal não é bem assim. Isto foi uma das coisas com a qual tive de lidar em estágio e não foi fácil, sobretudo porque fiquei a remoer na efemeridade da vida durante uma semana.

A morte é uma parte normal e natural da vida e toda a gente, mais cedo ou mais tarde, tem de a aceitar. Os enfermeiros lidam com isto demasiado frequentemente e pode ser esgotante quer emocionalmente quer espiritualmente caso não estejas minimamente à vontade com a situação. Com o passar do tempo e à medida que vão lidando mais frequentemente com esta situação os enfermeiros deixam de se sentir (muito) afectados por isso. No entanto a fragilidade da vida não é algo que abordem na escola sobretudo porque na vida diária este tema é varrido para debaixo do tapete porque as pessoas não ficam confortáveis a falar sobre ele. Mas a área da saúde é uma daquelas em que temos de olhar a Morte nos olhos e acolhê-la como se fosse um velho amigo.

6 comentários:

  1. Identifiquei-me com muitas das situações que abordaste aqui. Apesar de ter tirado um curso diferente, também tenho de lidar com doentes e médicos em ambiente hospitalar e é bastante desafiante. A gestão do tempo e o ser capaz de perceber se um doente está a ser sincero na descrição dos sintomas, foram os desafios com que também me deparei no estágio.

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  2. Definitivamente eu não nasci para ser enfermeira. Acho que não ia conseguir lidar com muito do que referiste no post. No entanto, admiro-te imenso por conseguires lidar :)

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  3. Há imensas coisas que não nos ensinam nas escolas e que só com a prática somos capazes de aprender. Concordo com as coisas que aqui escreves mas acredito que algumas delas seja essencialmente trabalho pessoal, tem que partir de nós e do nosso autoconhecimento e organização, e não dos estabelecimentos de ensino ou programas de formação. Saber gerir o tempo é uma ferramenta importante em todos os trabalhos, na vida em geral até, mas é óbvio que não nos vão ensinar isso durante o curso. Até porque é suposto já sabermos organizar-nos quando temos 18 anos e entramos na faculdade.

    Lidar com diferentes pessoas e sentimentos é outra competência básica que deve ser trabalhada por cada um de nós. Assim como a experiência da morte é algo duro e que tem que ser sentida, vivida e refletida de forma pessoal. Não são os outros que têm que nos ensinar a viver a nossa vida de forma emocionalmente sã :) Mas compreendo o desabafo! E estou de acordo porque acabam por ser coisas transversais a vários cursos. Também me senti muito desorientada e vi muitas lacunas no curso que tirei quando fui estagiar. A faculdade deve dar-nos as ferramentas teóricas e práticas da profissão, tudo o resto fica dependente da nossa capacidade de lidar com as situações, com a profissão, com as pessoas.

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  4. Ainda bem que não somos todos iguais e que há pessoas como tu que escolhem esse tipo de profissões. Eu não conseguia... Vivo tudo muito intensamente e é-me dificil desligar de certas emoções, o que me causa muito stress (maior parte das vezes desnecessário).
    Obrigada a ti por seres assim.

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  5. Imagino mais ou menos o que será tirar esse curso e sei que nunca conseguiria.
    É preciso ter imensa vocação e força para exercer essa profissão e é das mais importantes na minha opinião.

    http://mourissima.blogspot.pt

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  6. Como enfermeira que sou, e que adora aquilo que faz, tenho que concordar. Lembro me muito bem do que foi ser aluna de enfermagem, em especial na gestão de tempo (ou devo dizer na falta dela). Já a morte, para mim, sempre foi um tema com o qual lidei sem problemas. Agora alguns anos depois começo a pensar mais nela e a sofrer mais com o fim da vida mas quando isso acontece, saio do serviço, olho para a luz do dia, choro (porque sim, um enfermeiro também chora) e ganho uma energia nova para continuar a cuidar de quem precisa de cuidados.
    Dia após dia continuo a adorar o que faço, continuo a adorar trabalhar por turnos e continuo, em especial, a adorar perceber que fiz falta na vida de alguém.

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