Dores de Crescimento

20 agosto 2016

Os especialistas dizer que as dores de crescimento ocorrem em crianças em idade pediátrica (normalmente até aos treze anos) mas a isso só tenho a dizer uma coisa: tretas.

As verdadeiras dores de crescimento ocorrem depois, quando o Mundo começa a tornar-se um sítio confuso e em que as nossas decisões deixam de se basear com qual das Barbies vamos brincar hoje e passam a envolver carreiras. Crescer não é fácil e ser adulto é um bocadinho chato. Óbvio que todas as fases da nossa vida têm coisas boas e coisas más...mas dores de crescimento a sério não têm só a ver com dores ósseas ou musculares e a nossa preocupação em saber se vamos crescer mais um bocadinho ou se estamos a sofrer por nada.

As verdadeiras dores de crescimento começam quando aquele tipo pelo qual vocês estavam enamoradas quando tinham dezassete anos vos parte o coração e vocês juram que nunca mais vão ser a mesma pessoa (fica aqui uma novidade: não vão mesmo, mas isso não é mau), quando se esforçam ao máximo e mesmo assim não conseguem atingir os vossos objectivos, quando se vêm numa encruzilhada e não sabem que caminho escolher, quando dão por vocês a pensar que a vida está equilibrada e, de repente, muita coisa muda. Essas são dores de crescimento. Se calhar não aprovadas por médicos mas, ainda assim, dores.

Falando por mim: eu sou uma pessoa que se demora a adaptar a mudanças bruscas. Sobretudo se elas vierem todas ao mesmo tempo. Não tenho essa capacidade, nunca tive. Preciso de receber as notícias, mariná-las no cérebro e começar a aceitar devagarinho que vai acontecer. Quando entrei na Faculdade não tive esse luxo e a ficha só acabou por me cair no fim do segundo semestre e consigo dizer que foi um período complicado. E é assim que anda a minha vida: a tentar lidar com as dores de crescimento que estar na Faculdade implica.

Em dois semestres tive duas casas. Boas memórias em ambas, mas mais más que boas da primeira. Nessa invadiram a minha privacidade de tal forma (e tão violenta) que tinha medo de entrar em casa. Não voltei lá. Foi aqui que apareceu a segunda, para onde não fui sozinha e onde fui muito feliz. Mas a verdade é que também recebi a notícia que tinha(mos) de sair daquela casa porque enquanto eu vou voltar a Évora para mais um ano (que na sua maioria vai ser passado longe à conta dos estágios) o trabalho chama-o para Lisboa. Não eram esses os nossos planos, de todo. E demorei um bocadinho a aceitar que isso ia ser uma realidade. Não é uma coisa fácil de se fazer quando os nossos planos estavam traçados para outro caminho.

Apesar de já ter arranjado uma casa nova para o ano lectivo que se aproxima a passos largos e com colegas de casa espectaculares continuo um bocadinho emocional por abandonar aquela casa onde fomos tão felizes. Onde uma vez a torneira da cozinha me ficou nas mãos e eu apanhei um banho até alguém chegar a casa porque não sabia onde se desligava a água. Onde a Triz caiu nas minhas escadas e nós começámos as duas a rir à gargalhada. Onde senti finalmente que a vida fazia sentido e onde criámos uma pequena família com direito a dois cães (um nosso e outro dos nossos colegas de casa).

Foi a nossa primeira casa. Onde rimos muito, chorámos (mas não tanto), onde crescemos como pessoas individuais e casal. Onde tivemos a certeza que sim, senhor, isto faz sentido. Estamos oficialmente fora daquela casa há dois dias. E sempre que passar naquela rua vou olhar para o número três e vou-me lembrar de tudo: o bom, o mau, o absurdo e o ridículo. Vou-me lembrar da romaria de pessoas bêbedas que paravam sempre naquela rua e achavam que era porreiro fazer um arraial às cinco da manhã. Ou das vezes que estava à varanda e recriávamos aquela cena mítica do Romeu e Julieta.

Isto são as verdadeiras dores de crescimento. Quando percebemos que às vezes os nossos planos iniciais têm de ser adiados um bocadinho porque outras coisas importantes se impõem nas nossas vidas, quando ambas as partes têm de ceder para fazer o outro feliz porque é assim que as coisas funcionam. Quando temos de encontrar o nosso novo normal. Mas depois disto tudo sinto que tudo vai correr bem, porque segundo a Cat "vocês têm imensa química e cumplicidade e isso sente-se a milhas" e eu acredito porque sinto. E, se calhar mais importante ainda: for the two of us, home isn't a place. It is a person. And we are finally home.

Eu sei que ainda vou ter muitas dores de crescimento ao longo desta vida, mas não quer dizer que goste delas. No entanto elas não acabam - de todo - aos treze anos. Arrisco-me a dizer que é quando elas começam.

6 comentários

  1. vai custar sempre crescer. mas vamos aprendendo a tentar minimizar a dor... voces são capazes de tudo, acreditem naquilo que vos une.

    ResponderEliminar
  2. That's the spirit, Ana!
    Já lidei com distância nesse tipo de circunstâncias e sei como podem doer essas "dores de crescimento". Há que tentar ter sempre presente, depoiss do choque inicial e da aceitação, porque se fez essa cedência e se continuam a fazersacrifícios. Valem muito por cada segundo quando essa distância se quebra! :)

    Que corra tudo bem!

    Beijinhos,
    --
    Sofia | Monochromatic Wave

    ResponderEliminar
  3. Não podíamos concordar mais. Dizem-nos que a vida não é fácil, mas não nos preparam para adversidades tão difíceis...
    Mas vai tudo correr bem. Aproveitarão melhor o tempo que tiverem juntos. Não, não será nada fácil, mas vão saber lidar, umas vez melhor que outras. Falamos nós que ainda que vivamos juntos, só nos vemos na hora do "boa noite, vou dormir". Trabalhamos no mesmo sítio, mas quando um chega, o outro sai. Quando um folga o outro trabalha e quando folga o outro vice-versa. Não é nada fácil, mas com amor tudo se faz! :) Força!

    ResponderEliminar
  4. Mas que texto genial e tão sincero! Acredito que há de chegar a uma altura em que as dores deem tréguas! É apenas esperar para ver.

    A Vida de Lyne

    ResponderEliminar
  5. E doem. Doem muito. Adorei este artigo, talvez porque — à primeira vista — pensei que fosse a Ana-Enfermeira a escrevê-lo (assumi que ia ler alguns termos clínicos e cenas de agulhas!). Mas a verdade é que me deparei com a Ana-Menina-Mulher, que escreve — e fá-lo tão bem — de uma forma linda de se ler. Dizer que "tudo vai correr bem, isso passa, o tempo cura" é do mais trivial que pode haver. Mas, infelizmente, é verdade. Crescer dói mas faz-nos mais fortes, permite-nos criar novas histórias e um passado rico, não-monótono. O importante é que vocês são, como a Cat diz, lindos :) por isso têm tudo para dar certo. Aqui, ali ou na China.

    Sara Cabido | Little Tiny Pieces of Me

    ResponderEliminar

Design, coding and theme by Ana Garcês.
Copyright © 2011-2017