OFF TOPIC | Mulheres


Penélope é uma das personagens do poema épico A Odisseia, de Homero. Ulisses, o seu marido, parte numa das sagas mais famosas da literatura e ela espera-o por anos. Nesse período, recebe muitas propostas de casamento, mas diz que só se poderá casar quando terminar de tecer um sudário para o seu sogro. Todas as noites, Penélope desfaz o trabalho desse dia e nesse ciclo mantém-se fiel a Ulisses até ao seu regresso.

Mesmo nos dias de hoje é muito difícil encontrar uma mulher no papel do herói clássico – em filmes, livros, séries. No livro Humans of New York há uma fotografia de uma senhora, com a seguinte legenda (traduzida livremente por mim) que me fez pensar:
Quando eu tinha 19 anos, eu e uma amiga íamos estudar para Paris. Os nossos namorados foram às docas para nos ver partir. Quando estávamos a entrar no barco, o namorado da minha amiga disse-lhe: ‘Se fores, não irei esperar por ti.’ e ela ficou. O meu ouviu e decidiu dizer: ‘Eu também não esperarei’ ao que respondi ‘Não esperes’.

Se não conhecemos representações de mulheres que vão à luta e à procura de algo e que tomem o Mundo pelo colarinho e que, muitas vezes, não sabem ao que vão (porque os heróis em geral lançam-se nas suas demandas pelo e no desconhecido) passamos a acreditar que, de facto, trata-se de um tem que ser assim porque sempre foi. Que não temos voto na matéria, que o nosso lugar é em casa e não a contribuir para a sociedade. E que isso é a coisa mais natural de sempre. Se o teatro, a televisão, a literatura não falam de mulheres no papel de Ulisses, mas falam de mulheres no papel de Penélope, fica mais fácil pensar que às mulheres cabem ser Penélope e não Ulisses. Caberia às mulheres a costura, a espera e a castidade. Aos homens, o mar, o canto das sereias, a amizade com os Deuses do Olimpo.

A questão, porém, não é achar que a coisa se deva inverter porque no fundo trata-se de igualdade de direitos. Não é saudável para ninguém passar os dias a costurar e depois desfazer o trabalho do dia à espera.

No entanto é excelente saber que existem, sim, na vida real, essas pessoas. Ainda que a ficção não acompanhe. A luta das mulheres começou em 1908 quando se manifestaram para reivindicar o seu lugar na força de trabalho e na sociedade. Nos anos 20 foi-lhes atribuído, finalmente, o direito ao voto. Nos anos 40 tomaram os lugares dos homens em fábricas de armamento e munições para equipar as tropas durante a Segunda Guerra Mundial, em condições deploráveis e sem os mesmos direitos e respeito. Nos anos 60 queimaram soutiens enquanto protestavam por igualdade. Nos anos 70 obtiveram os mesmos direitos políticos e a possibilidade de auferirem do mesmo salário que um homem.

Como mulher não posso deixar de me sentir orgulhosa do que as gerações passadas de mulheres alcançaram para as gerações presentes e aquilo que as gerações presentes ainda poderão alcançar para as gerações futuras. O caminho não foi fácil e ainda há muitos quilómetros a percorrer.

Não digo que seja necessário escrever um novo poema épico ou uma nova Odisseia mas se calhar já está na altura de criarmos novas personagens femininas que tenham o mar, as sereias, os monstros e os Deuses do Olimpo como amigos e que sejam as heroínas da narrativa.

A todas nós: Feliz Dia Internacional da Mulher! Que continuemos a surpreender o Mundo. E que nos superemos a cada dia, a cada ano, a cada geração.

 



 
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10 comentários:

  1. Excelente! Só acrescentava o facto de em Portugal as mulheres terem "ganho", por assim dizer, direitos depois do 25 de Abril, principalmente o de poderem sair do país sem precisarem de que o marido assinasse uma autorização.
    De resto, perfeito, as always! Feliz dia da Mulher :)

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Nem mais :)

    P.S. Adorei a passagem do livro :)

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  4. Não sei se é do meu cérebro andar a mil à hora, mas o texto pareceu-me extremamente confuso... Acho que preciso de descansar os sentimentos...
    Sorrisos,
    Alexandra :)

    Diário d'uma novata

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  5. Adorei o texto, está fantástico! :)
    Feliz Dia da Mulher :D

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  6. Que belo texto!
    Beijinho e um feliz dia da mulher*

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  7. a lua começou bem antes, mas registos oficiais mesmo são esses sim ;)
    post lindo, adorei!

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  8. Bom texto! Só mudava uma coisinha: quem escreve assim das mulheres é, sim, feminista. Dizeres que não o és e escreveres isso tudo sobre a capacidade das mulheres de mudar o mundo é um tanto ao quanto enganador. Afinal de contas, só quem quer as mulheres no papel de submissão ao homem é que não é feminista.

    Puzzled Marie

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  9. Sabes bem aquilo que dizes, és fantástica :D

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