PERSONAL | De Tudo O Que És

20 dezembro 2013


Há imensas coisas das quais tenho saudades.

É impossível passar ao lado desses olhos cor de safira, demasiado claros para serem turquesa, demasiado carregados para serem azul-bebé. Sempre atentos, sempre curiosos e sempre amáveis. Não me posso esquecer também que quando sorrias um dos teus olhos ficava mais pequenino como se estivesse a dar lugar à tua felicidade.

E esse sorriso? A maneira como os cantos da tua boca se arrepiavam e davam acesso a uma faceta de ti mais recatada. Se viesse junto com uma gargalhada podes ter a certeza que me arrepiavas os ossos e me fazias genuinamente feliz.

Havia ainda o remoinho de cabelo que detestavas e lutavas todas as manhãs com o pente enquanto insistias que ias rapar o cabelo de vez – outra vez – mas eu sempre te consegui persuadir. Hoje ainda lutas com o remoinho e que continuas a usar o risco ao lado.
Era bonito ver o sol bater-te no cabelo e notar que ele estava a ficar progressivamente mais loiro.

Posso também referir a maneira que falavas com paixão das coisas e fazias e gostavas e da maneira que punhas toda a gente à tua volta a beber as tuas palavras, a ficarem agarradas ao que dizias. Acho que tu nunca te apercebeste que tinhas esse efeito. A culpa não era só tua e do teu entusiasmo. A voz que soava ajudava, completamente envolvente.
Acho que nunca cheguei a te pedir que lesses para mim, mas acho que teria gostado. Podia ouvir-te durante horas.

Existem os dedos inquietos que marcavam notas quando as tuas mãos não estão coladas a um saxofone. Existe o roer de unhas compulsivo. Existem todos os teus sinais que eu conheço tão bem que funcionavam como mapa.

Existiam os beijos que me davas de surpresa quando me apanhavas na cozinha com música nos ouvidos. Existiam aqueles olhares que trocávamos quando estávamos em partes opostas da sala quando tu tinhas de te ausentar para conversares com colegas do trabalho. Existiam os sorrisos inquietos e inevitáveis sempre que púnhamos a vista em cima um do outro e os tímidos que trocávamos em frente de toda a gente mas que só nós compreendíamos. Os abraços. Os toques. Os dedos entrelaçados.

Existia o maldito despertador que soava todas as manhãs à mesma hora primeiro com a música do Inspector Gadget. Existia eu meter-te as minhas mãos frias nas costas para acordares e o desligares. Não dava muito resultado porque meia hora depois voltava a tocar – com uma música diferente – e eu voltava a te abanar até que te resignavas e acordavas.

Existia o fumo familiar do primeiro cigarro da manhã, que invadia o quarto e se entranhava no meu cabelo e nas minhas roupas. Fumavas dois antes de te levantares finalmente dando espaço para que eu ocupasse a cama toda.
Sempre fui chata com o facto de fumares. Essa seria a única coisa que mudaria em ti.

Por estranho que pareça essa é uma das coisas que mais sinto falta. A familiaridade do teu fumo de cigarro e do facto de tu nunca cheirares a tabaco. 
Cheiravas a mar, a fresco e a sol. 
Nunca soube como conseguias fazer isso, mas sempre foi o aroma que me fazia sentir em casa.

De tudo o que tu és há tanto para sentir falta.


E desse tanto tenho saudades.




 
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12 comentários

  1. Tu és forte e não precisas disso. É uma parte enorme de ti e tu sabes que eu entendo mas já eras a Ana incrível antes dele e vais continuar a sê-lo depois dele, garanto-te :)

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  2. Eu sei o que é isso, estou a passar por algo semelhante e ainda agora fez 24h que o meu coração ficou partido. (Ironicamente fazíamos um ano já este domingo.)
    Já começo a perceber que as coisas não serão as mesmas. Mas tenho de ser forte. Muito forte até.

    Vou notar (e já noto) a diferença na rotina, e a solidão, porque aquela pessoa estava comigo todos os dias.

    Mas temos de ser fortes. ;)
    E vamos ser! Precisamos de coragem, ela está escondida dentro de nós, é preciso apenas chamá-la.

    Coragem! :D

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  3. Que texto lindo, Ana! Dos melhores que já li por aqui, a sério!
    Muita força!
    Beijinho*

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  4. o que se passou querida?
    Força!

    beijinho <3

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  5. Não estava a contar/precisar disto a esta hora, damn ._.

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  6. E só tu saberás o que essa saudade dói. Um beijinho *

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  7. Tão bem escrito :)

    http://coucoucaroline.blogspot.pt/

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  8. Já te disse o que este texto provocou em mim mas o melhor que tenho a dizer-te é que eu sei que essa saudade dói mas tenho sempre esperança de que um dia deixe de doer e contigo vai deixar...
    Stay strong *

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  9. Um texto muito bonito e tocante. Apesar da dor, pensa que esses momentos existiram e isso já ninguém te tira. Agora é força e seguir em frente **

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