PERSONAL | O Fim dos Livros

20 novembro 2013

Quando leio livros a parte que menos gosto são os finais. As pessoas envolvem-se com as personagens e estão intoxicadas com a história que viram página atrás de página com avidez, curiosidade e um certo receio sobre o que vai acontecer a seguir até que chega o - inadiável - final.

O problema dos finais é que nós os sentirmos chegar mas fazemos de conta que não os vemos porque é mais fácil.
Começa quando a narrativa abranda, as palavras ficam mais espaçadas e difíceis, cada vírgula acarreta infinitos significados e os pontos, quando chegam, apanham-nos de surpresa.

Sim, há qualquer coisa no ar quando o fim está próximo. É um pesar, é um batimento cardíaco que falha, um nervoso, um nó no estômago. Está tudo lá, nós é que fazemos que não vemos e que não é nada connosco.

O virar da última página não é o pior. O pior é o que vem depois quando nos apercebemos que aquelas personagens com quem convivemos e aquela história que vivemos, conhecemos como a palma da nossa mão e acompanhamos ao longo de tantos capítulos chegou, inevitavelmente, ao fim.
O pior chega quando estamos sozinhos com os nossos pensamentos e permitimos que uma lembrança abra a porta. Ela nunca vem sozinha, traz sempre tantas outras atrás.

Sabemos que vamos sempre amar aquele livro e que ele foi a aventura e história da nossa vida - todos temos um livro assim, mais cedo ou mais tarde. Sabemos também que com ele leva o melhor de nós e aquilo que de mais bonito tínhamos para oferecer e que, de certa forma, sempre pertenceremos no meio daquelas palavras, vírgulas e acções.

Quando o livro acaba e a última página é virada perdemos o Norte por momentos. Não queremos ler outro livro, não queremos viver outra história. É complicado, durante uns tempos. Vai passando e tornando-se mais fácil, mas nunca passa realmente aquela saudade e aquele vazio que aquela história e aquele livro - o da nossa vida - deixa.

Os personagens principais sempre disseram que a história ia ter uma narrativa infinita e ambos acreditavam nisso.
No entanto há vírgulas que podem mudar a direcção da história e nessa altura o que fazer? Quando sabemos que queremos ler aquele livro para o resto da nossa vida, mas ele parece que não quer o mesmo que caminho devemos seguir? Sair de cena antes do fim dramático? Impossível. Aguentar firme até ao final da narrativa e esperar que cada ponto não seja o último? Sem dúvida.
O pior é quando o parágrafo final chega e tudo te lembra desse livro que uma vez leste e que uma vez te pertenceu.

Quanto a mim, estarei sempre pronta para ler mais um capítulo das peripécias de sempre que eu tão bem vim a conhecer, desde que esse seja escrito pelo mesmo autor de todos os outros.

Sei que as bibliotecas são vastas e que quando se termina um livro inicia-se outro. Mas eu por agora não quero mais livros na minha biblioteca. Não durante muito algum tempo. Talvez nunca queira tanto um livro como o último que li. Talvez nunca queira conhecer tanto uma história da maneira que conheci aquela.
Talvez o último ponto se transforme em vírgula e permita que mais seja escrito ou talvez mais nada a esse ponto seja acrescentado.
É aguardar. Até lá vou estimar o que restou do livro que uma vez foi meu. Por ter sido a mais bela aventura que alguma vez li.




 
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8 comentários

  1. Onde é que posso aprender a escrever assim? Tu fazes-me apaixonar pela tua escrita! :3
    E percebo tão bem...às vezes até tentamos voltar umas páginas atrás para tentar adiar ao máximo o fim do livro, o último parágrafo, a última vírgula, o ponto (mesmo) final...

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  2. Identifico-me perfeitamente com o que escreves-te... Acontece-me especialmente com coleções de livros...

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  3. Acredita que quase me senti a entrar em depressão ao longo de um livro. Por isso entendo o que aqui dizes.

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  4. tão eu! the fault in our stars é um dos livros que me fez sentir assim. chorei e ri com aquele livro, e no fim senti-me vazia.

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  5. Que grande texto. E, não sei se propositada ou não, mas que grande metáfora...identifiquei-me perfeitamente - tanto no que toca à verdadeira leitura, porque sinto mesmo isso (estou agora a acabar o Monte dos Vendavais e está a doer-me a alma!), mas ainda mais no que toca a outro "livro" que tive que vi acabar recentemente...

    Mas nunca se sabe se não haverá sequelas ou outros livros igualmente bons. Only time will tell, espera, mas não desesperes :)

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  6. Não sei se isto é para ser uma metáfora ou não (sou péssima a decifrá-las) mas quando chego ao final de um livro que gostei muito sinto um certo vazio. Fico confusa e pergunto-me "..e agora?". Mas depois vem o próximo livro.

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  7. Sem dúvida é uma sensação muito estranha. Mas eu tenho um hábito (estranho?) de gostar de ler sempre o último parágrafo do livro antes mesmo de o começar a ler, porque normalmente nunca é o último parágrafo que desvenda a história porque a história é desvendada à medida que vamos lendo.
    ultimamente ando é bastante frustrada por ter tantos livros em lista de espera e o tempo ser cada vez mais surto,:x

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