PERSONAL | After The Storm

17 novembro 2012

Depois da tempestade, o que é que fica? Os optimistas dizem que é a bonança e a perspectiva de um novo começo - e eu era uma dos optimistas - mas agora sei que não é bem assim.


Acho que toda a gente ontem acordou com aquilo que eu chamo uma valente tempestade: chuva e trovoada. E ninguém iria adivinhar o que se passaria dai a algumas horas.
O céu começou a ficar negro - mesmo ao estilo de coisa ruim que se aproxima - e a partir dai eu comecei a viver tudo em câmara lenta. O primeiro sinal de alarme soou na minha cabeça quando mesmo à minha frente vi raios a cair e a criarem pequenos fogos numa área de mato. Depois a pressão aumentou e para mim respirar tornou-se difícil. A minha mãe de olhos bem abertos e a agitar as mãos sem saber o que fazer ouviu as minhas palavras balbuciadas para sair de perto das janelas e de se refugir num dos sítios mais seguros que temos em casa - o corredor. E depois a escuridão abateu ainda mais e o assobio ameaçador do vento ecoou nos meus ouvidos de forma violenta. A pressão aumentou ainda mais que eu soltei um grito. O pior tinha passado, eu tinha parado de tremer e compus-me. Naquele momento não ouvia nada, estava na minha bolha segura e quente.
A bolha rebentou a partir do momento em que abri a porta de casa - e mal sabia eu que aquele passo que dei seria um dos maiores desafios que alguma vez tive - e sai da segurança que esta me dava para a incerteza e destruição que se apresentava à minha frente.

13 feridos, 12 desalojados e 4.660 pessoas sem luz
Jornal DN
Nada de preparou para o que ia ver. As minhas vizinhas de esfregona e vassouras na mão a varrer a água e os vidros, a grande janela do corredor do meu andar toda partida e lá em baixo uma das bicicletas que estava encostada a ela no chão. A porta de entrada no prédio toda aberta, o hall de entrada todo sujo com lama, pedaços de árvore e pedras. Na rua a desgraça foi maior. Todos os carros estacionados tinham vidros partidos, os candeeiros da luz estavam destruídos, pedaços de varandas de pessoas, telhas, roupas, pedras e vidros espalhados pelo perímetro. Um dos sons que marcou o dia de ontem foi sem dúvida o som cortante dos vidros a tocarem no metal das pás que os limpavam do chão.

Andando pela vizinhança as coisas em vez de melhorarem só pioraram. Entre carros capotados e muros caídos o que mais me espantou foram as pessoas. Quando saí à rua tinha na minha cabeça que iria fazer tudo o que podia para ajudar, mas nesse momento eu era inútil. O que pude fazer, fiz. Acompanhei e ajudei algumas pessoas ainda desorientadas para locais mais seguros - encaminhando as que precisavam de cuidados médicos para os postos montados e as outras para o café mais próximo para um copo de leite quente e algum conforto. Estive constantemente com um nó a prender na garganta e as lágrimas a ameaçar cair. Quanto mais via pior ficava.

As forças de intervenção foram muito rápidas na assistência aos feridos e a qualquer pessoa que pedi-se apoio e a comunidade esteve mais unida que nunca. Com o cair da noite a chuva ao de leve continuou a cair, a luz faltou e os trabalhos por largos minutos pararam.

Tornado no Algarve causou 13 feridos e deixou rasto de destruição
Jornal iOnline
Estou privada de sono, porque o pouco que dormi, dormi mal. Assim que fecho os olhos vejo tudo a desenrolar vez atrás de vez em câmara ainda mais lenta na minha cabeça, faço os cenários possíveis se alguma variável no dia de ontem tivesse sido diferente - e podia ter acontecido muita coisa diferente. O som das ambulâncias ainda não parou, já aterraram vários helicópteros aqui perto, as serras eléctricas ainda não pararam de cortar as árvores que morreram ontem ao serem violentamente arrancadas da terra e os destroços esses ainda não desapareceram.

Hoje o sol brilha e dá esperança a quem ontem se foi deitar sem saber o que fazer daqui para a frente. O cenário está melhor mas continua tudo muito mau. Eu recuso-me a ir à janela porque infelizmente tenho vista privilegiada para a destruição tendo em conta que moro mesmo no centro de onde tudo aconteceu.

Depois da tempestade o que é que fica? O medo. A incerteza. A destruição.

Até jazz,

7 comentários

  1. Que situação horrível. Espero que fiques bem.

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  2. É mesmo horrível... Força querida, espero que tudo melhore*

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  3. Espero que esteja toda a gente bem aí por casa!

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  4. Força, vai tudo correr bem!
    Sei que já deves tar farta de ouvir isto porque o que as pessoas querem é ver as melhorias, mas vão haver acredita, vais poder dormir descansada. Beijinhos

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  5. As notícias chegaram por aqui...
    Espero que estejam todos bem! Tenha muita força que logo tudo voltará a ficar bem!
    Beijinhos! **

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  6. Tambem fiquei super assustada...não sabia que és de Silves:) moramos perto uma da outra.

    Http://styleloveandsushi.blogspot.com

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